Pesquisa mapeia agentes infecciosos nos hospitais brasileiros

Quais são os agentes infecciosos mais comuns em hospitais brasileiros? Como as infecções se distribuem pelas regiões do país? Qual é a resistência aos antibióticos apresentada pelos microrganismos envolvidos nesses casos?

Essas são algumas perguntas que um abrangente trabalho de pesquisa está procurando responder.

Iniciado em 2007, o projeto Brazilian Scope (sigla em inglês para “vigilância e controle de patógenos de importância epidemiológica”) já registrou cerca de 3 mil episódios de infecção ocorridos em 16 hospitais brasileiros e identificou 1.828 microrganismos envolvidos.

O trabalho é coordenado pelo professor Antonio Carlos Campos Pignatari, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Versão brasileira

A ideia do programa foi trazida dos Estados Unidos em 2006 pelo infectologista e pesquisador Alexandre Marra, também da Unifesp, que esteve naquele país para seu pós-doutorado. “O Scope norte-americano registrou 24 mil episódios de infecção da corrente sanguínea em 49 hospitais daquele país e foi coordenado pelo professor Richard Wenzel, da Universidade de Virgínia”, contou Pignatari.

Os pesquisadores da Unifesp decidiram elaborar uma versão brasileira do programa e receberam o apoio da FAPESP. “O Scope é um importante auxílio à saúde pública, basta lembrar que o ambiente hospitalar é o local que apresenta o maior índice de mortes por infecção”, disse Pignatari.

Controle da infecção hospitalar

Para fazer o levantamento, a equipe entrou em contato com vários hospitais por meio das comissões de controle da infecção hospitalar (CCIH). Ao todo, 16 instituições de todo o país, entre públicas e privadas, aceitaram o convite.

As CCIHs se tornaram as responsáveis pela coleta de informações de sua unidade e registraram o primeiro episódio de infecção da corrente sanguínea ocorrido com qualquer paciente durante a internação no hospital.

Essas informações foram registradas em formulário próprio e enviadas para o grupo da Unifesp, que organizou um banco de dados com informações clínicas epidemiológicas sobre essas infecções.

Identificação dos causadores das infecções

Saber quais são os microrganismos mais incidentes em cada região é fundamental para o aprimoramento do tratamento médico e os resultados da cultura do sangue (hemocultura), que indicam o patógeno e o antibiótico adequado, demoram cerca de dois dias.

“Como o médico não pode esperar para iniciar o tratamento do processo infeccioso, ele receita o antibiótico com base em sua experiência clínica, protocolos assistenciais ou dados fornecidos pelas CCIHs dos hospitais “, disse Pignatari.

O problema é que as características dos microrganismos causadores dessas infecções podem variar de região a região, de uma cidade a outra e até entre hospitais. “As regiões, os climas e até os pacientes são diferentes.

Por isso, é importante que os hospitais conheçam as infecções às quais os pacientes de sua região, cidade ou hospital está sujeita”, afirmou.

Amostras dos fungos e bactérias

O Scope brasileiro avançou a versão original norte-americana ao solicitar aos hospitais o envio dos fungos ou bactérias encontrados nos exames – a fim de ser analisados no Laboratório Especial de Microbiologia Clínica (Lemc) da Unifesp, dirigido por Pignatari.

Com equipamentos capazes de detectar os mecanismos genéticos de resistência das bactérias, o Lemc aumentou o número de informações a respeito das infecções. Foi possível levantar, por exemplo, o perfil de resistência de muitas bactérias a determinados antibióticos, incluindo aqueles de uso não habitual.

Embora facultativo, o envio das amostras constituiu um dos maiores desafios do trabalho, segundo Pignatari. “O transporte exigiu a contratação de uma empresa com certificação internacional em biossegurança e foi uma das partes mais dispendiosas do projeto”, disse.

Infecção em recém-nascidos

Contudo, graças a esse trabalho, a equipe obteve avanços importantes, como a detecção dos mecanismos de resistência da Klebsiella pneumoniae, bactéria responsável por episódios de mortes de recém-nascidos em vários hospitais brasileiros.

“Recentemente, esse microrganismo vem apresentando resistência aos antibióticos do grupo dos carbapenems, deixando poucas opções terapêuticas seguras para o tratamento de infecções por esse agente”, disse Pignatari.

Por meio da análise molecular feita pelos equipamentos do Lemc, os pesquisadores podem rastrear a disseminação dessa resistência associada a produção de um grupo de enzimas denominadas KPC (carbapenemase-beta-lactamase).

Bactérias monitoradas

“Da mesma maneira, as enzimas metalo-beta-lactamases da bactéria Pseudomonas aeruginosa são responsáveis pela inativação do mesmo grupo de antibióticos. Presente em praticamente todo o país, esse microrganismo tem sido identificado e rastreado na sua disseminação graças às análises moleculares do laboratório da Unifesp”, disse Pignatari.

O mesmo acompanhamento está ocorrendo com o Staphylococcus aureus organismos prevalentes em hospitais do país e cujas mutações genéticas tem dificultado o seu combate. A caracterização molecular dos diferentes clones desses microrganismos pode auxiliar na implementação de medidas de controle mais efetivas por parte das CCIHs dos hospitais

As análises moleculares do Lemc acabam auxiliando os hospitais ao identificar a versão das bactérias coletadas e indicar um antibiograma adequado ao combate. “Podemos também acompanhar o andamento de epidemias e alertar hospitais para que fiquem atentos a infecções que ainda não chegaram até eles”, disse Pignatari.

Infecções no sangue

Análise feita pelos pesquisadores, abrangendo 1.715 pacientes, identificou um índice de 38% de mortalidade nos casos registrados de infecção da corrente sanguínea, valor considerado elevado. A maior parte dessas fatalidades esteve relacionada a pacientes que tinham alguns fatores de risco. O cateter venoso central, por exemplo, estava sendo utilizado por 68% dos pacientes que morreram.

Empregado também em pacientes que necessitam de quimioterapia, as infecções relacionadas ao cateter venoso central poderia também contribuir, de acordo com os pesquisadores, para o índice de 24% de óbitos por infecção entre pacientes que faziam tratamento de câncer.

Outros grupos mais sujeitos às infecções, apontados pelo trabalho, foram os internados em unidades de terapia intensiva (UTIs) que apresentaram a taxa de 48% de mortes causadas por infecções. “O quadro desses pacientes já era grave e a infecção piorou o quadro, o que pode justificar essa letalidade”, apontou Pignatari.

Também os transplantados formam um grupo que exige atenção especial quanto às infecções. Os medicamentos utilizados para diminuir a rejeição do novo órgão atuam inibindo o sistema imunológico do paciente, deixando-o mais sujeito a adquirir infecções.

Os pesquisadores da Unifesp agora acompanham grupos mais específicos de pacientes, como crianças com câncer, transplantados renais e transplantados de medula óssea. “Cada grupo tem suas peculiaridades e estão mais sujeitos a determinadas infecções”, disse Pignatari.

Análise individual

Agora, a equipe de pesquisa está enviando os dados coletados aos hospitais participantes para que possam ser analisados individualmente e apresentados à comunidade científica em congressos e publicações especializadas.

A equipe pretende dar continuidade ao projeto ampliando seu raio de ação por meio de convite a outras instituições que se interessem em participar e incluindo novos testes moleculares nos estudos microbiológicos para caracterização dos mecanismos de resistência a antimicrobianos.

“Acreditamos que o projeto pode trazer contribuição significante no controle das infecções relacionadas a assistência a saúde em nosso meio e esperamos contar com o apoio institucional e das agências financiadoras de pesquisa na sua continuidade”, disse Pignatari.


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